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Luiza Sahd

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Ninguém é ‘genioso’. Talvez você é que seja mandão

Luiza Sahd

17/04/2018 05h00

(Foto: iStock)

 

Dia desses, estive tentando "desensinar" o xixi na rua para a cachorra. Ela sempre desce três vezes e não tenho tido todo esse tempo livre. Então, comprei aquelas fraldinhas de chão (que ela usava quando era filhote) e, numa bela manhã de primavera, quando Hebe veio pedir passeio, tentei refrescar a memória dela: "Xixi é aqui!", disse, apontando a fralda.

Duas horas se passaram e a bicha se contorcia mas não cedia. Num misto de pena e determinação, peguei a coleira e tive a pachorra de levá-la para dar uma volta até… a fralda. Dei petisco ali. Deixei a bichinha fechada só naquele cômodo. Mais uma hora se passou. Nada.

Desisti, soltei a cachorra pelo ambiente e esperei pelo pior — checando esporadicamente se não havia xixi na cama ou no sofá. A cada vez que a Hebe voltava a me arranhar para pedir coleira, passeávamos até a fralda sem sucesso.

Praguejei "ôh, cachorra geniosa!". Aí, tive algo que deve ser parecido com flashback de droga vencida. Lembrei de ter sido chamada de geniosa a vida toda, desde a primeira infância. Enquanto arrancava os cabelos bolando estratégias para convencer a cachorra a mijar em casa, me questionei seriamente, pela primeira vez, sobre o que exatamente é ser genioso. Olhei dicionários além de referências aleatórias e trago más notícias: suspeito que "genioso" seja o atributo de quem não faz o que os outros esperam dele sem levantar questionamentos. Gente geniosa dá trabalho, mesmo.

Uma vez, o escritor José Saramago disse o seguinte: "Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro". Vi isso e nunca mais fui a mesma — mas me distraio de vez em quando e ainda me flagro tentando colonizar a mente de alguém. Todo mundo tenta.

Se fosse possível controlar esse tipo de coisa, eu adoraria me cercar de pessoas geniosas pelo resto da vida. Elas oferecem dupla vantagem porque, além de serem autênticas, poderiam me lembrar todos os dias de que tentar convencê-las do que não querem é uma violência.

O pessoal genioso veio ao mundo para salvar os mandões do próprio umbigo.

Em outras notícias, a cachorra geniosa acabou fazendo xixi fora da fralda umas três horas depois. Ela é da resistência, não tem jeito. Fui repetindo o comando na fralda durante outro dia inteiro até que ela fez metade na fralda, metade no chão. Ela tentou um acordo razoável. Fiz festa e dei petisco. Vamos ver se, no próximo, a gente chega num negocinho bom para as duas.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.