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Luiza Sahd

Pensando bem, fazer silêncio é uma forma de rebeldia

Luiza Sahd

18/01/2018 05h00

(Imagem: iStock)

Tendo em conta que silêncio é diferente de silenciamento, ando gostando muito de silêncios constrangedores. Em atitude talvez um pouco terrorista, quando escuto algo que me incomoda, passei a olhar fixamente para o interlocutor esperando que ele complemente aquele raciocínio que pareceu absurdo. Geralmente, funciona: ou bem a pessoa entende o que não digo com a boca e se explica melhor ou economizo latim e abandono a situação — evitando discussões que não levam a lugar nenhum.

O curioso nisso é que meu silêncio tem provocado mais conciliações do que quando eu usava as palavras como suporte comunicativo principal.

Outro dia, a amiga que divide apartamento comigo perguntou como é possível que a cachorra aqui de casa tenha um olhar tão insolente e reparou como nos damos comandos usando só a troca de olhares (porque ela também me adestrou para pedir petiscos e similares em silêncio, obviamente). Tive que contar uma história ridícula: desde quando ela era filhote, brincamos de "contato visual intenso".

A palhaçada mora no fato de que é raro um cachorro encarar pessoas (especialmente estranhos) por mais de dez segundos sem reagir ou desviar o olhar. Estranhamente, a minha me olhava nos olhos por longos períodos sem que nenhuma de nós desistisse do duelo. O resultado: virou um hábito gastarmos 20 a 30 minutos da manhã apenas fazendo "contato visual intenso" enquanto afofo a barriguinha dela. Desconfio que falo mais com ela do que com qualquer outro ser vivo.

Talvez por causa dessa brincadeira besta mesmo, em algum momento da vida, cheguei à conclusão de que várias das minhas relações pessoais foram prejudicadas pela falta de silêncios. Por mais que a gente dê o nosso melhor tentando dizer algo que preste, resolva ou ao amenize dilemas, nem sempre existe algo a ser dito sobre toda e qualquer situação. É como quando alguém querido morre: nenhuma palavra de consolo vale mais do que um ombro.

Os ombros, aliás, falam com mais sinceridade do que a boca: a depender da altura deles, a gente nota que o outro está tenso, expansivo, agressivo ou triste. Os gestos das mãos, a direção dos pés ou o modo como a sobrancelha das pessoas se arqueia são evidências já manjadas de como ler o outro, mas, mesmo assim, a gente não pratica nada disso.

O excesso de fala tem sido um fator complicante na nossa comunicação. Em alguma altura da vida, somos ensinados que silêncios precisam ser preenchidos e esquecemos de usar todos os outros recursos que o corpo proporciona para que a gente se expresse. Deve ser por isso que é tão difícil trocar carinho físico hoje em dia: compartilhar fluídos é moleza, mas carinhos sinceros têm sido raridade.

Gostaria de propor aqui a rebeldia do silêncio. Constrange seu interlocutor, sim! Faz contato visual intenso sem falar nada, sim! Essa categoria de silêncio nunca matou ninguém.

Palavra de prolixa: podemos aproveitar melhor as respirações durante nossas conversas para falar o indizível.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.