Luiza Sahd

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Falando uma língua diferente, você também vira uma pessoa diferente

Luiza Sahd

07/12/2017 08h00

Você falando a língua materna/ Você falando um idioma estrangeiro. (Foto: Divulgação)

A primeira frustração que um estrangeiro sente durante o processo de aquisição de algum idioma quase sempre é a impotência na hora de arranjar briga. Ainda não inventaram nada mais irritante do que você ser contra uma situação, saber exatamente o que quer dizer, mas parecer uma criança balbuciando enquanto está puto das calças.

Durante minhas primeiras semanas morando em Madrid, tive vontade de tentar suicídio ao estilo Didi Mocó por causa de uma briga presa na garganta por vários dias. Aconteceu que, chegando na cidade, procurei um apartamento perto do parque para passear bastante com os meus cachorros. Uma vizinha teve a mesma ideia, só que ela deixava o cachorro dela sem guia pela calçada e ele atacava os meus. TODOS OS DIAS.

No início, eu olhava feio. Dias depois, eu resmungava. Lá pela quinta vez, minha vontade era dizer “minha senhora, se a senhora não colocar uma coleira no seu cão, infelizmente vou ter que te morder eu mesma, porque meu cachorro é besta e não reage, o seu não tem culpa de nada… teremos que resolver essa parada entre nós”. O que consegui fazer, de fato, foi xingar tanto em portunhol desconexo que ela passou a prender o cão bravo. Também tomei medidas cabíveis: comecei a estudar a língua para aprender a insultar as pessoas com alguma dignidade.

Mais de dois anos se passaram e graças a Deus já sei brigar no idioma estrangeiro. Acontece que, de alguma maneira misteriosa, sou uma pessoa mais razoável aqui e não sabia de onde vinha isso até ler esta reportagem do Javier Salas publicada no El País em setembro.

A matéria menciona uma série de estudos que indicam que somos mais racionais e menos emotivos quando usamos uma língua que não seja a materna para nos expressar. É como se o cérebro precisasse checar duplamente o que sai da boca e, nesse processo, nos tornássemos mais objetivos. Eu diria que faz sentido. Em espanhol, sou Ruth e em português, sou Raquel. Ou Paulina e Paola, respectivamente, se for para pensar em termos de “A Usurpadora”.

Além do rigor científico, a gente preza pelas vivências aqui, então te apresento outros motivos porque falar outra língua pode transtornar a sua personalidade:

– Você nem sempre lembra exatamente as coisas que precisa falar na hora em que quer, cansa de perder o timing das piadas e vai improvisando mesmo, de modo a virar motivo de chacota da turma (em qualquer turma). A opção B seria virar a múmia do grupo que não abre a boca com medo de errar;

– Equivalência de termos em outros idiomas muitas vezes é uma falácia. Assim como não existe tradução exata para “saudade” em nenhum idioma, não é de se estranhar que os caras também tenham as palavras exclusivas deles. Aprendendo palavras exclusivas, você aprende sentimentos novos. Olha aí você mudando;

– O senso de humor e o que é considerado “boa educação” varia muito de um país para outro. Você vai entrando na dança e, quando vê, está reagindo de maneira completamente diferente aos mesmos estímulos que poderiam provocar a reação oposta na sua terra;

– Você pode aprender a xingar e a falar coisas bonitas, você pode aprender muita coisa ao longo dos anos, mas nunca termina de aprender tudo. Isso te torna mais humilde. E pessoas humildes são sempre um pouco melhores.

Aconteça o que acontecer, você sempre vai morrer de saudades de fazer barraco em bom português.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.

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