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Mais do que nunca, brasileiras precisam de homens

Luiza Sahd

17/11/2017 08h00

Parece imagem sensual, mas é o trabalho de Paula Rego sobre a solidão do aborto. (Foto: Pinacoteca do Estado)

As piadas sobre trocar pneus ou a resistência do chuveiro ficaram obsoletas desde o advento dos seguros privados. Para além do fato de que qualquer mulher munida de vontade, acesso ao Google e polegar opositor seja perfeitamente capaz de realizar tais proezas, existe um pouco de verdade no debate sobre o papel social do homem diante da constante emancipação das mulheres em relação a seus pais, maridos ou filhos.

Vira e mexe, a gente escuta que os homens já não sabem o que oferecer para as mulheres. Talvez a melhor resposta para essa grande questão seja: um homem muito ajuda quando não atrapalha. Isso serve para qualquer gênero, mas alguns homens têm nos atrapalhado — muito. E de forma bastante covarde.

No último 8 de novembro, uma proposta de emenda constitucional (PEC) foi aprovada por 18 homens contra o voto de uma única mulher na Câmara. Se entrar em vigor, a PEC 181 prevê que mulheres respondam criminalmente caso recorram a alguma das três modalidades de aborto permitidas por lei no Brasil:

  • Para vítimas de estupro;
  • Quando há risco de morte da gestante;
  • Se houver diagnóstico de anencefalia do feto (até 2012, as gestantes foram obrigadas a terem filhos cuja expectativa de vida fora do útero é de poucos meses).

Em termos mais didáticos, a gente realmente tem conseguido se virar com a dificuldade para abrir embalagens de pepino em conserva, mas viver em um mundo regido por homens que não levam em conta questões extremas como a do aborto, isso sim, está se tornando impossível. Não há mais como negar: precisamos de homens.

Temos precisado de homens inclusive para autorizar que uma mulher violada receba a opção de não carregar um trauma vivo no corpo. Precisaríamos dos homens que legislam para impedir uma atrocidade assim, mas não só deles: para aquele bebê ter ido parar naquele útero, sabe o que também foi necessário? Um homem. Nesse caso, seria de bom tom que todos os outros homens deixassem de ser coniventes com a dupla condenação das vítimas de estupro.

Para que bebês sejam concebidos, precisamos de homens. Para que eles nasçam, não. É desse pedaço da história em diante que muitas mulheres fazem tudo sozinhas. Só elas passam por uma gestação. Por um parto. Pelo esforço de aleitamento… ou por um aborto. Poucas coisas no mundo podem ser mais solitárias do que um aborto. Prova disso é que uma a cada cinco mulheres brasileiras já abortou, mas você nunca saberá quem são elas.

Outra coisa que temos feito sozinhas é lutar pela decisão sobre corpos que costumavam ser nossos até que uma gestação ameace esse direito mínimo. Corpos masculinos são sempre, inquestionavelmente, dos homens. Deve ser por isso que quase não vemos os mesmos caras que se orgulham por defender a igualdade de gêneros se posicionando sobre a PEC 181. Não os afeta.

Fica essa dica, então. Olha que chance boa de colocar a igualdade em prática!

Não estamos esperneando pelo direito a um privilégio ou a uma diversão. Estamos pleiteando só a chance de sairmos vivas de uma das situações mais mortificantes que existem no mundo. Tomara que possamos contar com homens para isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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