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Luiza Sahd

Por que cultivar plantas virou modinha?

Luiza Sahd

18/09/2017 08h00

Suculentas: o maior truque em termos de jardinagem que você respeita

Pra começo de conversa, isso aqui não é o tribunal da modinha. A gente adora uma modinha, porque é um recurso a mais para se conectar com as pessoas, ter assunto, parecer legal e tudo isso que move nossas vidas de ponta a ponta, mesmo que não gostemos de admitir.

Em seu livro "Contágio – Por que as coisas pegam", o professor de Marketing Jonah Berger explica o que torna um fenômeno viral ou o que faz um negócio emplacar. Resumindo bastante a teoria, gostamos de compartilhar tudo o que "pega bem socialmente". Por isso, incluí essa referência bibliográfica, que pega superbem quando você quer emplacar um argumento.

Mas, as plantinhas. O que explica um monte de gente de trinta e poucos anos obcecado por jardinagem quando há uma década só quem achava isso cool era a sua tia Zoraide? Bom, a gente está na era da ideologia versão miojo: prática e instantânea. E se tem uma coisa mais prática e instantânea do que se conectar com a natureza a partir de um vegetal que não demanda muito esforço, ficando ali quieto num vaso e exigindo só água com sol de vez em quando, desconheço.

A gente é tão truqueiro que as primeiras plantas a conquistarem os corações hipsters foram as suculentas. Cactos, né? Você larga a bicha lá e vai curtir a vida. Prático. Bonito. Selvagem pero no mucho. E a febre das plantas está tão disseminada que comecei a reparar no volume de caras que postam fotos com plantas nos aplicativos de paquera. Impressionante. Lembro de um bem emblemático: era um barbudo descalço, rústico mesmo, usando uma calça de moletom que casualmente marcava o peru sem cueca enquanto borrifava água em uma espécie de planta que sinceramente eu perdi o foco. Entre amigos, apelidamos o sujeito de "O Fertilizador". Há tantas camadas de semiótica naquela imagem que eu adoraria postar aqui, mas vamos evitar o famoso Processinho™.

Fonte: Buzzfeed Brasil

Teve também o caso da capa de Dia dos Pais da Folha de São Paulo que deixou o pessoal meio mordido na internet, com o modelo da reportagem recebendo o apelido carinhoso de "Pai de Planta". Claramente, o sujeito já se ligou que jardinagem é muito mais prático do que paternidade. E pega bem.

Apesar de ser uma moda aí que tem lá o seu quê de picaretagem, se aficionar por plantas nos dias de hoje tem muita lógica. Começa que a gente só vê cimento por onde olhe, não temos tempo nem de lavar atrás da orelha no banho e termina que as plantas ensinam umas liçõezinhas aí. Obviamente, embarquei na moda da jardinagem hipster e estou alucinando com alguns tapas na cara que a natureza me deu.

Primeiro que as plantas têm seus caprichos. Você pode pesquisar, regar, fertilizar, falar com elas, querido, você pode qualquer coisa mas ela vai vingar ou não de acordo com os caprichos dela. Teve uma que eu mudei de lugar, sem brincadeira, umas dez vezes para entender de qual luminosidade ela precisava. Quase morreu, mas passa bem.

Segundo é que as coisas têm ciclos. Estou em uma cidade com Quatro-Estações-Real-Oficial e, todo outono, dou uma das plantas por morta até que, OPA, chega a primavera e ela volta do coma. Cresce no ritmo dela, murcha se faz muito calor, não há dinheiro ou dedicação no mundo que possa dar um jeitinho de alterar o ritmo da planta, mesmo que eu ame jeitinhos e atalhos fáceis.

Surfando na modinha das plantas, tento também respeitar meus ciclos pessoais. "Se a plantinha pode, também posso". Nem sempre o entorno permite, mas tem umas coisas internas que a gente precisa se permitir. A planta é um excelente exemplo a ser seguido, nesse caso.

Vamos celebrar a moda da jardinagem, vamos encher a casa de planta e botar foto em tudo quanto é rede social, que pega bem e faz bem também. Quem sabe a gente aprenda alguma coisa com isso, mas se não aprender, já fica mais esteticamente agradável do que o entorno parede-de-escritório.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.