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Até Fernando Pessoa era maluco dos signos. Com licença, a gente também pode!

Luiza Sahd

03/08/2017 08h00

Mapa astral de Ricardo Reis, desenhado por Fernando Pessoa. Sol em Virgem, Lua em Libra, Ascendente em Aquário

 

Começo de mês é aquela correria, né? Salário para cobrar, contas para pagar, planejamentos e tal. Apesar de tudo, incrivelmente, sempre sobra tempo para dar aquela checadinha no horóscopo do mês e, infelizmente, comentar sobre o assunto perto de algum pentelho que vai dizer que isso aí é balela.

Sou esperta e não vou nem entrar no mérito de ciência versus picaretagem. Antes de qualquer coisa, a astrologia, para mim, é entretenimento… E gratuito. Azar de quem não aproveita.

Por exemplo: no dia primeiro, fui lá ver o que Susan Miller — a astróloga mais pop do mundo — me prometia para agosto. Em linhas gerais, ela dizia que os arianos vão ficar ricos, famosos e encontrar o grande amor da vida deles. Na prática, o que me aconteceu até agora foi descobrir uma hérnia de disco meio incapacitante para o trabalho excessivo ou o sexo selvagem, mas, desde então, tô em casa de pijama bem tranquila. Só esperando esse pessoal das prosperidades bater aqui na porta. Obrigada, astros!

Outro dia, teve o amigo cético que fez a maldade de me enviar um link insinuando que a astrologia era um engodo, de acordo com a teoria do Efeito Forer. Meu, sai daqui com esses links! Prometi nunca tentar convencê-lo sobre a veracidade da astrologia se ele pudesse fazer o mesmo por mim e parasse de tentar me convencer do contrário.

Agora, escuta essa. Sabe quem era muito maluco dos signos? Fernando Pessoa.
E, pasme, ele tinha um cérebro bastante privilegiado. Inclusive, o cérebro dele não derreteu por acreditar nos movimentos dos astros, veja só.

Em março de 2015, sem que estivesse nos meus planos, tive a sorte de passar pela casa de Fernando Pessoa em Lisboa. Vou te contar que esse meu trânsito astral tava muito bom. Que mês, que mês, amigos! Por lá, tudo muito legal, muito bonito, mas o que me chocou realmente foi descobrir que Pessoa fazia um mapa astral para cada um de seus heterônimos. Bem coisa de geminiano com ascendente em escorpião mesmo. Hehe.

Mapa Astral do Alberto Caeiro, um ariano com Vênus e Marte em Touro

 

Em 1915, o poeta chegou a criar um heterônimo chamado Raphael Baldaya, astrólogo que cobrava entre 500 e 5.000 réis por cada consulta. Não sei quanto daria isso na conversão de hoje, ainda mais com o real assim desvalorizado, mas eu certamente sacaria meu FGTS para investir em uma consulta com ele.

E sabe o livro "Mensagem", em que Pessoa escreveu que "tudo vale a pena se a alma não é pequena" na poesia Mar Português? Então. Ela narra as descobertas lusitanas em 12 etapas que são correspondentes aos 12 signos.

Para quem não curte esse papo de signos, deve ser bem chato ouvir o coleguinha tirar conclusões sobre a sua personalidade com base em astrologia. Se servir de consolo, ele não está te julgando. Caso astrologia seja toda uma farsa milenar, seu amigo está, no máximo, fazendo um exercício de ficção.

Uma coisa que me faz preferir os fanáticos por astrologia aos religiosos é que nunca vi um viciado em horóscopo dizer que tem que matar escorpiano, fazer clitoridectomia em piscianas ou que deveria ser crime dois sagitarianos que se amam terem seu casamento reconhecido. A galera dos signos é gente boa demais. Deixa esse pessoal em paz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.