Luiza Sahd

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Como uma massagem tântrica mudou toda a minha vida

Luiza Sahd

22/06/2018 04h01

(Getty Images)

Existem títulos sensacionalistas e existem títulos inevitáveis. O deste post pertence à segunda categoria. Uma única sessão de massagem tântrica me fez ver coisas que são impossíveis de desver, então decidi romper silêncios que me feriam, sem que eu notasse, durante os últimos vinte e muitos anos.

Quanto mais fico cética sobre a vida e o universo, menos acredito em acasos. Na última semana, durante um encontro com amigas, escutei a experiência de uma colega com a massagem tântrica e pensei “É caô. Vou fazer só para constatar”.

Entrei em contato com o profissional que atendeu a amiga e tirei um caminhão de dúvidas sobre o Tantra, além de contar por que eu estava procurando esse tipo de experiência: virei militante do afeto mas, como muita gente afetada por ele, não andei me dando o luxo de abrir o coração com pares românticos nos últimos tempos. Isso aí, na minha terra, chama hipocrisia.

Na data e horário combinado com o André Imano Miten — esse é o nome do terapeuta que veio em casa atender — senti muita ansiedade. A situação de pagar um profissional pra te fazer ter orgasmos supostamente alucinantes parecia esquisita demais até para mim, que sou esquisita. Acontece que o André tocou o interfone e decidi não amarelar.

Eu já tinha deixado o ambiente com meia luz, um colchonete no chão e uma toalha ao lado, seguindo orientações dele. Conversamos sobre o significado da massagem tântrica e ele explicou que, para algumas pessoas, pode ser uma experiência muito forte; para outras, apenas uma experiência. Suspeitei que me enquadraria no segundo grupo e, quando ele perguntou se eu preferia sessões mais graduais ou começar por uma experiência mais impactante, optei pela última — inclusive porque pobre é uma desgraça: sei lá eu de onde tiraria dinheiro pra ficar fazendo consultas sucessivas até entrar no túnel branco de que já ouvi falar.

A massagem inicial é quase um cafuné que vem em ondas. Toques leves por cada milímetro do corpo já nu, vindo de alguém que está vestido e respirando no esquema “siga o mestre”. Se você respira no ritmo do terapeuta, além de criar confiança e conexão, seu corpo responde melhor a qualquer estímulo.

Durante o procedimento, não senti nada de excitação sexual. A sensação era a de estar ganhando um carinho que, se não me falha a memória, só experimentei na adolescência, quando a gente tem aquela fé inabalável no amor (e nenhuma decepção prévia). Durante essa etapa, minha mente foi para algum paraíso em que todo o meu corpo era aceito do jeitinho que ele é. Nem eu mesma me proporciono isso, veja bem. Então, ponderei que não estava em condições de recusar. Me entreguei à vivência.

Agora, vem a parte do conto erótico sem erotismo. A massagem nas genitais é feita com luvas, óleo e vibrador. Fiquei intrigada com o método de puxar suavemente o clitóris para cima e para fora no lugar do famoso movimento de DJ que todo mundo faz, esmagando o coitado do órgão do prazer ao invés de estimulá-lo. Vivendo e aprendendo.

Nesse momento, quero lembrar a todos que o meu problema a ser “curado” era o de não me permitir grandes trocas de intimidade. Então, quando comecei a sentir indícios de orgasmo (já que a parte física estava excelente), eu tentava contornar o constrangimento de gozar ali, com aquele desconhecido. Se entendi direito as explicações, o Tantra também desaconselha o excesso controle sobre si mesmo. Apesar disso, comecei a ficar frustrada por não controlar muito o meu corpo e comecei a chorar discretamente.

Foi em algum momento dessa batalha entre físico e mental que percebi que o físico havia superado a racionalização e que, bem, eu já estava quase em situação de orgasmo. Quando o André falou: “pode sentir, isso é seu”, senti um solavanco da cabeça e do tronco para frente. Estava deitada de barriga pra cima e fui subindo sem controle de nada, porque em nenhuma situação da vida senti tanto prazer e, muito menos, um orgasmo que aumentava ao longo do tempo ao invés de diminuir.

Quando me assombrei com a duração e a intensidade do gozo, veio o choque. Comecei a gritar e chorar, tudo misturado, pedindo que ele parasse porque “tá doendo demais, demais”. Não era uma dor física. Senti uma dor espiritual ou coisa que o valha, como se eu tivesse recebido uma notícia de morte violenta. Quanto mais tentava parar de chorar, mais chorava. Aparentemente, meu físico tinha dado um golpe na mente, assumindo o painel de controle da porra toda. Sem querer, fui para algum lugar horrível do passado que eu não sabia muito bem qual era.

André me estendeu a mão e esperou pacientemente que meu choro fosse dando lugar, de novo, a nossa respiração compassada. Decidimos seguir, e, de novo, me flagrei tentando conter os orgasmos. Quando senti que o segundo orgasmo seria incontrolável, percebi que ele era muito mais forte do que o primeiro. Aviso de gatilho: a partir daqui, o conteúdo aborda abuso sexual infantil.

IMPORTANTE: O Disque 100 é um serviço de apoio e proteção a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Caso tenha passado por isso ou saiba de alguma vítima que precise de ajuda, peça orientações por lá.

Ponderei muito sobre expor o caso, sobre me expor publicamente e até sobre como meus familiares se sentiriam sabendo do que escondi a vida inteira, mas lembrei que essa história é, acima de tudo, minha. Tão minha quanto os orgasmos de hoje que me causavam aversão porque lá entre os 7 e 9 anos de idade, passei por dois abusos sexuais vindos de homens. Um deles, de um adulto da minha vizinhança; outro, de um garoto da minha idade. Sabe aquela piadinha sobre bolinar a prima para aprender a transar? Parem de contá-las para seus filhos. Parem de fazê-la. Parem com essa violência sem tamanho.

Os abusos vieram à minha mente tão nítidos como se eu os estivesse assistindo em um cinema com tela Extreme Digital e poltrona que mexe. Gritei e chorei tanto que, sinceramente, estou com vergonha de cruzar com vizinhos pelos próximos dias. De novo, nada doía fisicamente, mas a dor de perceber que passei a vida me sentindo culpada e suja por ter sido tocada sem consentimento é inenarrável.
Desse momento em diante, foram sabe-se lá quantas conclusões, em frações de segundo, sobre o meu funcionar sexual.

– Sinto medo do meu corpo porque ele pode atrair agressores em potencial caso eu seja bonita ou sexy demais;
– Tenho aversão a homens muito fortes ou temperamentais porque temo que me forcem a coisas que não quero;
– Me sinto mais confortável dominando do que sendo dominada graças ao pavor de ser conduzida a algo traumatizante;
– Sentir prazer no enlace sexual vinha sendo, nesses anos todos, uma “confirmação” de que eu era culpada pelos abusos que sofri.

É engraçado que eu tenha relatado coisas abomináveis e me sinta, nesse momento, mais feliz, livre e grata do que nunca. Foi como se tivessem pegado a minha capacidade de sentir prazer, embrulhado em um pacote bonito e colocassem um cartão “toma, isso é um presente só seu. Agora, você tem direito de sentir prazer para sempre, como e com quem quiser, porque o seu prazer não é sujo, ele é lindo, é uma festa”.

Dito isso, recomendo a massagem tântrica a homens e mulheres com capacidade para perceber que a terapia não tem nada a ver com sacanagem. Sacanagem foi a forma como manipularam meu corpinho quando eu não tinha idade, força ou repertório para me defender. Sacanagem é você ter encoxado sua coleguinha na escola sem que ela pedisse, sacanagem são outras coisas.

No mais, seguirei com sessões esporádicas até ter certeza de que não há nada de errado em sentir muito prazer — ou até que os vizinhos ameacem me processar.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.

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