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O vício em ‘lacrar na internet’ atingiu níveis epidêmicos. E agora?

Luiza Sahd

17/08/2018 04h00

Em caso de lacre, mantenha a calma e escolha seu lado com sabedoria (Foto: iStock)

 

Não é de hoje que as pessoas passam dos limites no amor pelos memes. Agora, vamos viajar no tempo e voltar a 2013, quando Beyoncé lançou seu álbum homônimo na calada da noite. Certamente, fãs do mundo inteiro ficaram impactados, mas nada deve ter superado este vídeo de fã entrando em colapso (e nos fazendo colapsar junto). A gente sabe que o Brasil é melhor em tudo na internet, inclusive em ser pior.

Muito que bem. Desse dia em diante, a gíria "lacrar" pegou. Pegou tanto que serviu para definir qualquer sucesso estrondoso desde então e, obviamente, virou jargão. Como todo meme repetido à exaustão, esse negócio de lacrar foi incomodando muita gente. A lacração foi evoluindo e ganhando novos significados. Para o pessoal que sente bode de pautas progressistas, o "vício em lacrar" nada mais é do que a rotina do internauta que acorda e dorme reivindicando direitos humanos nas redes sociais.

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A realidade, em 2018, é que temos online o time lacração versus o time exausto dos posts de lacração. O final dessa história você decide:

O argumento de quem odeia a lacração é o de que o pessoal fica na internet reclamando de desigualdades, racismo, homofobia ou machismo e acaba não fazendo nada na vida cotidiana por essas pautas — ou pelo mundo, de modo geral.

Já quem está lacrando não está reclamando de quem reclama porque, bom, aparentemente tem angústias mais altruístas do que a preocupação quanto ao que o colega conservador vai pensar dele.

Agora, aproveito o espaço para sair do armário. Sou viciada em lacre. Odeio a gíria da lacração mas meu coração quase sai pela boca quando vejo alguém falando de assuntos que parecem urgentes para um mundo mais igualitário. Me pergunto todos os dias do que gosta quem não gosta de ver gente — sobretudo gente jovem — reclamando um mundo mais justo.

Aparentemente, existem duas vias para ganhar notoriedade nas redes sociais no momento. A primeira é lacrar e a segunda é tirar sarro de quem está lacrando. Deus me livre de virar sommelier de webcelebridade (que seria um emprego um pouco mais micado do que o de jornalista), mas que tristeza deve ser a vida de quem se faz notar por meio de cinismo.

Uma lacradinha sem compromisso não prejudica ninguém. Já esse bando de adulto conectado para fazer bullying com quem pensa sobre bem-estar coletivo está sim prejudicando o outro e, sobretudo, a si mesmo.

Aí você abre o perfil do sujeito que é anti-lacração e preenche a cartela do bingo em menos de cinco minutinhos: piada nociva, autodepreciação, carência, desespero por atenção, solidão, amargura, descontentamento consigo e com o mundo. Nesse caso, se gostar de lacração fosse crime, eu pegava logo era uma prisão perpétua.

O vício em lacrar na internet atingiu níveis epidêmicos. E agora?

Agora é comemorar. No fim das contas, se a situação de quem quer parecer bonzinho nas redes tá ruim, imagina como tá pra quem quer parecer atroz.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.