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Nego do Borel X Marillac: como é fácil fazer um homem se sentir menos macho

Luiza Sahd

15/01/2019 04h00

A cantada de uma mulher trans compromete sua masculinidade? Se a resposta for sim, a culpa não é dela. (Colagem: andcrespi)



Não é de hoje que a gente vem avisando duas coisas:

1- Cantada é coisa séria;

2-  O ódio contra a comunidade LGBT é costume de quem não se sente confortável com a própria sexualidade.

Às vezes, é difícil dar exemplos práticos de como isso funciona no dia a dia. Às vezes, basta abrir as redes sociais.

No último sábado (12), o cantor Nego do Borel posou de sunga em seu perfil no Instagram. Dentre as dezenas de elogios e cantadas que recebeu, Borel escolheu um comentário para rechaçar — e foi justamente a mensagem escrita por Luisa Marillac, mulher trans que ganhou fama tomando bons drink na Espanha em 2013. Veja como foi:

 

É intrigante que justamente o homem que se travestiu de "Nega da Borelli" para beijar um cara num videoclipe tenha ficado tão abalado ao receber a cantada de uma mulher trans. O mecanismo é bem tosco e acontece por aí toda hora: Borel não respeita a identidade feminina de Luisa (reconhecida por lei!). Assim, receber um elogio dela sem revidar poderia passar a impressão de que o funkeiro gosta de paquera com travestis. O gesto é popularmente conhecido como transfobia, mas muita gente acha que o assunto é perda de tempo.

O assunto importa tanto que aqui estamos, cercadas por homens descompensados que entram em pânico e ficam agressivos quando viram alvo do interesse sexual de mulheres que eles não leem como femininas ou mesmo de outros caras. 

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O embate entre Borel e Marillac marca muito bem a forma como a masculinidade tradicional parte da lógica de que xaveco e intimidação andam juntos. Por um lado, a maioria dos homens cresceu sem aprender como demonstrar interesse por alguém evitando dominar ou constranger a pessoa. Por outro, toda essa valentia aí explode feito bolha de sabão quando eles acham que outro homem está fazendo com eles o que eles fazem com tantas mulheres, o tempo todo.


Bem-vindos à consciência do que é sentir intimidação diante de uma cantada, rapazes. Pena que tenha acontecido pelas razões erradas: Nego do Borel só pescou e revidou a cantada de Luisa, entre tantas outras cantadas femininas, porque sentiu transfobia.

Achei simpático que Nego do Borel tenha publicado um pedido de desculpas nestes termos: "Luísa, eu quero te pedir desculpas do fundo do meu coração pelo o meu comentário. Realmente eu errei, me perdoa. É um jeito meu que eu estou tentando mudar aos poucos, a gente vai mudando, lapidando aos poucos".

O que ele não sabe (e que muita gente não diz) é que não se trata de um "jeito dele"; a reação à cantada de Marilac é fruto de um "jeito" de ser homem que fere muita gente, inclusive a eles próprios. Tentar ser o mais macho dos machos, cobrar que outros caras provem hombridade e essa papagaiada toda só tem prestado para fazer com que os cavalheiros durmam e acordem com medo de ter sua masculinidade roubada por sabe-se lá que entidade, como se fosse possível tirar isso de alguém. O macho inseguro sempre acaba causando transtornos imensos com seus gestos desesperados para passar o tal atestado de virilidade. 

Calma, caras. Se vocês se sentem confortáveis sendo homens, fiquem tranquilos: ninguém consegue tirar isso de vocês. Nem quem nasceu homem e se descobriu mulher, nem quem é homem e sente atração por homens, ninguém mesmo tem esse superpoder. Se vocês conseguirem dormir sossegados em relação a isso, provavelmente a sociedade inteira vai poder dormir mais sossegada também.

O maior inimigo do homem não é mulher, o feminismo ou a comunidade LGBT. O verdadeiro adversário de vocês é o amigo que chega falando "isso é coisa de viado" ou cobrando que você seja um exemplo de masculinidade. Às vezes, esse amigo aí é você. Precisava?

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.