Luiza Sahd https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado. Wed, 17 Jul 2019 07:00:09 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 ‘Mulatas exóticas’: assim são chamadas bailarinas brasileiras em Madri https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/mulatas-exoticas-assim-sao-chamadas-bailarinas-brasileiras-em-madri/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/mulatas-exoticas-assim-sao-chamadas-bailarinas-brasileiras-em-madri/#respond Wed, 17 Jul 2019 07:00:09 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2523

O que há de exótico numa pessoa normal? (iStock)

O verão em Madri é marcado por uma agenda intensa de festas e festivais. Nos meses de junho, julho e agosto, tradicionalmente, os muros e postes da capital espanhola são forrados por cartazes do tipo lambe-lambe com propagandas de baladas e shows para todos os gostos.

Nas últimas semanas, quem caminhou pelos pontos mais turísticos da cidade deve ter visto este cartaz, bem chamativo, divulgando uma festa brasileira na Sala Caracol, uma das mais importantes casas de espetáculos da capital europeia:

Foto: Reprodução/ Facebook – Sala Caracol


O cartaz, que ao longo de todo o mês de junho foi se multiplicando por zonas muito movimentadas da cidade — como La Latina, Lavapiés, Puerta del Sol, Gran Vía ou Malasaña — trazia uma descrição intrigante das bailarinas brasileiras que se apresentariam no evento: “mulatas exóticas”.

Veja também

As fotos do lambe-lambe se tornaram uma espécie de viral em grupos de Whatsapp com membros brasileiros vivendo na Espanha. Elas chegaram aos montes nas minhas notificações, sempre acompanhadas de mensagens indignadas com o tratamento dedicado às mulheres que se apresentariam na Gran Fiesta de Brasil.

Mais uma das 1001 fotos do lambe que me foram enviadas via Whatsapp em junho.

Diante do bombardeio diário de imagens do cartaz infame — tanto nas caminhadas pela cidade quanto nas mensagens de celular –, passei a mão no telefone e contactei a assessoria de imprensa da Sala Caracol para saber mais sobre a escolha de um termo racista para a divulgação do evento.

O posicionamento da casa de espetáculos

Em contato com Helena, assessora que preferiu não divulgar seu sobrenome “por ser só uma trabalhadora”, perguntei o que havia de exótico nas bailarinas que se apresentariam sábado, 6 de julho, na Caracol. “Elas têm braços no lugar do nariz ou algo do tipo? É por isso que são exóticas?”, brinquei.

Helena disse que, pessoalmente, achava o termo ofensivo, mas que a Sala Caracol nem sabia da existência do cartaz. “Ele foi feito pelo organizador do evento, nós alugamos o espaço e nem vimos esse cartaz”, garantiu. Quando perguntei por que, então, o banner com “mulatas exóticas” também estava sendo divulgado em todas as redes sociais e no site da Sala Caracol, ouvi um muxoxo irritado do outro lado da linha, seguido por um “te ligo daqui a pouco explicando”.

Ao cabo de meia hora, os posts da Caracol divulgando a Gran Fiesta de Brasil haviam sido apagados e Helena telefonou avisando que o evento seria cancelado, mas que a casa de não comentaria o episódio “porque a Caracol já teve problemas antes com questões de racismo. Não fica bem para a imagem da marca”. 

Questionada se as bailarinas deixariam de receber o cachê por conta do cancelamento da apresentação, Helena respondeu que estava proibida de seguir conversando com Universa. Ainda tentei argumentar que a Caracol é conhecida por visibilizar artistas de fora do circuito europeu em Madri (e que uma conversa com as bailarinas poderia ser produtiva caso a escolha do termo “mulatas exóticas” fosse uma opção das próprias artistas), mas Helena foi irredutível. A Sala Caracol não respondeu se as bailarinas receberiam o cachê combinado e se recusou a passar o contato das moças.

O que diz o organizador

Seydina Ndiaye é um artista senegalês que produz festas africanas em Madri. De acordo com a Sala Caracol, o músico — que protesta contra ditaduras da África em algumas faixas do seu último álbum — é o responsável pela festa e pela criação do lambe-lambe onipresente na capital da Espanha. Em sua Fanpage do Facebook, pude ver que ele estava divulgando a Gran Fiesta de Brasil com fotos de celebridades como Viviane Araújo e Ellen Roche sambando na Sapucaí.

Conversei com Seydina por e-mail para saber mais sobre a escolha de “mulatas exóticas” como atração da festa brasileira. O produtor explicou que é negro, não é racista e apelou para minha “grandeza humana” para esquecer o assunto de vez. Em sua resposta, Seydina afirmou que também teria sido proibido pela Sala Caracol de responder sobre o pagamento de cachê aos artistas escalados para a apresentação cancelada.

Festa “cancelada”

Minutos depois de trocar e-mails com o músico e produtor do evento, telefonei para o contato divulgado no cartaz como se fosse uma cliente interessada em comprar ingressos para a Gran Fiesta de Brasil. Quem me atendeu foi o próprio Seydina, que continuava vendendo convites para o show. 

Quando me identifiquei, ele reiterou que não passaria o contato das bailarinas e desligou o telefone antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

Nos dias que se seguiram até o sábado da Gran Fiesta de Brasil, busquei o contato das bailarinas com artistas, donos de bares e organizadores de festas brasileiras em Madri. Todos se mostraram intrigados por não conseguirem o contato das moças que se apresentariam na Sala Caracol — e o incômodo com tom racista dos cartazes era unânime na comunidade de imigrantes brasileiros, mas não só.

Carmelle Massama, 27, é uma estudante de direito internacional que vive na Espanha há um ano. Nascida no Congo, ela também se sentiu ofendida com os cartazes espalhados por todos os cantos cidade. “O racismo é uma ferida aberta para todos nós que somos negros. Quando ele é institucionalizado assim e combinado com essa objetificação ou animalização da mulher negra, como se fosse algo trivial, o insulto se torna muito maior e mais difícil de combater”, conclui. 

Sobre o uso da palavra “mulata”, cuja etimologia ainda é controversa — pode ter vindo de “mula” ou de “muwallad” (mualad, mulad), mestiço do árabe com o ‘não árabe’, Massama é categórica: “a palavra ainda dói, ainda nos incomoda. Não importa se ofende poucas ou muitas pessoas. Por que a gente precisa se referir a alguém usando o tom de pele como vocativo? Por acaso existe a necessidade de eu te chamar de ‘branca’ ao invés de Luiza?”, indaga.

O que diz a lei espanhola?

A sergipana Maria Dantas, primeira deputada brasileira eleita no Parlamento Espanhol, é advogada e ativista pelos direitos dos imigrantes na Espanha há 25 anos. Em conversa com o blog, Dantas contou que esteve em Madrid e viu o cartaz na Gran Vía, a maior avenida comercial da cidade. Ela lamentou o posicionamento da Sala Caracol no caso e explicou que a Constituição Espanhola ainda não conta com nenhuma lei integral contra o racismo.

“O que se pode fazer em casos como este é uma denúncia por discriminação. Se alguma pessoa ou grupo se sentir ofendida com os cartazes, a medida cabível é apresentar uma queixa com o máximo de provas possíveis do delito na delegacia mais próxima”, explica. 

Ao que tudo indica, ninguém se incomodou com situações assim nos últimos anos a ponto de formalizar alguma denúncia. O uso de “mulatas” e “mulatas exóticas” não é exatamente uma novidade em Madri: as badaladíssimas Sala ClamoresSala Taboo já fizeram eventos propagando os mesmos termos para se referir a bailarinas brasileiras.

Que fim levou a festa?

No sábado previsto para a Gran Fiesta de Brasil, os convidados que chegavam à Sala Caracol eram informados de que a festa havia sido cancelada “devido a uma restrição da Prefeitura de Madri”. 

Aqueles que pediam maiores informações sobre as razões do embargo eram logo cortados e encaminhados ao guichê onde poderiam reclamar o ressarcimento do valor pago para entrar na balada. 

As bailarinas brasileiras nunca foram localizadas e a Sala Caracol não fez nenhum tipo de nota de esclarecimento sobre o episódio. Na verdade, ela segue funcionando a todo vapor, quase diariamente e quase sempre lotada, reafirmando o compromisso com artistas e aficionados pela música periférica em Madri.

]]>
0
Tati Quebra Barraco sobre “capô de fusca”: esse é o feminismo que queremos https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/07/10/tati-sobre-capo-de-fusca-esse-e-o-feminismo-que-queremos/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/07/10/tati-sobre-capo-de-fusca-esse-e-o-feminismo-que-queremos/#respond Wed, 10 Jul 2019 07:00:40 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2508 Parece mentira que vivemos para ver uma mulher falar publicamente, sem constrangimento, sobre uma trivialidade que deveria estar sendo discutida há muito tempo. O debate sobre a questão da “mulher xerecuda” urge.

Se você é mulher xerecuda — e nunca se sentiu contemplada na hora de comprar biquínis e maiôs (mas também não pediu que as marcas de moda praia aumentassem as calcinhas) –, tenha em mente que Tati Quebra Barraco honrou o nome artístico e quebrou um galhão por você nesse comecinho de semana.

Veja também

Só de falar sobre uma necessidade básica dessas sem usar o famigerado termo “capô de fusca”, que associa nossas vulvas a peças de oficina mecânica, Tati já mereceria o céu; mas ela foi além e lembrou que a moda do biquíni enfiado não tem ajudando em nada a mulher que quer ir à praia para, de repente, se divertir, relaxar, sentar de perna aberta sem ficar tensa porque vai escapar alguma coisa de dentro da calcinha. Alguma coisa bem íntima, tipo um grande lábio vaginal.

Mais do que conforto, achar roupas de banho que tenham tecido suficiente para cobrir o que foram feitas para cobrir deveria ser uma missão simples. Não é.

Obviamente, biquíni cavado pode e deve existir para atender às mulheres que querem e conseguem ficar confortáveis a bordo daquela tirinha mixuruca; o problema é quando não existe opção para quem não quer seguir o padrão sexy na praia.

Peregrinando de loja em loja sem achar opções honestas para proteger a tchebs do sol, a gente se acostumou a achar que o nosso corpo está errado quando ele não se adapta às demandas da moda… e esqueceu que nenhum corpo deveria estar “errado”. Erradas são as marcas que não contemplam corpos diversos.

Baixaria ou banalidade?

Muita gente pode argumentar que “mulher xerecuda” também é uma forma chula de se referir a uma vulva. Se for o que você está pensando nesse momento, recomendo demais que leia esta reportagem da colega Adriana Terra, sobre os nomes que damos para nossas genitálias, antes de chegar a qualquer conclusão. 

Ainda sobre a Tati Quebra Barraco, fico triste quando ela é dura com outras mulheres nas redes sociais, mas quando ela acerta o discurso, ela acerta mais que Simone de Beauvoir. 

A gente sabe quais são os padrões machistas que nos impedem de avançar como sociedade igualitária. Agora, seria bom poder falar mais abertamente sobre o tema das mulheres xerecudas ou alguns outros levantados por ela, como este:


Ou este:

Faça mais sexo e menos treta; um oferecimento Tati Quebra Barraco.

Aguardamos ansiosamente pela descriminalização da mulher xerecuda e pelas próximas causas que Tati pode nos ajudar a visibilizar como assuntos mais naturais e menos vexatórios. Esse é, definitivamente, o feminismo que queremos.

]]>
0
Casal moderno? Na década de 80, Paula Toller já reclamava dos “garotos” https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/07/02/casal-moderno-na-decada-de-80-paula-toller-ja-reclamava-dos-garotos/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/07/02/casal-moderno-na-decada-de-80-paula-toller-ja-reclamava-dos-garotos/#respond Tue, 02 Jul 2019 07:00:35 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2503 O meme do casal moderno já nasceu como clássico instantâneo nas redes sociais — e ninguém cansou até agora. Deve ser porque o casal moderno está brigando pelas mesmas tretas desde o início dos anos 1980. Senão, vejamos.

Esta é a música “Garotos”, escrita por Paula Toller em parceria com seu então namorado, o cantor Leoni. Ambos eram da banda Kid Abelha e fizeram essa belezinha juntos.

“Garotos perdem tempo pensando em brinquedos e proteção/ Romance de estação/ Desejo sem paixão/ Qualquer truque contra a emoção” 

Veja também

A discussão sobre masculinidade tóxica pode parecer muito moderna, descolada e atual. Quando li esta ótima reportagem do colega Giacomo Vicenzo, por exemplo, fiquei contente porque as pessoas estão começando a reconhecer mais esse assunto. Imagine então qual foi minha surpresa quando me dei conta de que, há mais de 30 anos, Paula Toller já estava reclamando da mesma porcaria.

Nos versos de “Garotos”, ela reclama basicamente da forma como os homens são criados para não reconhecer (e muito menos assumir!) seus momentos de vulnerabilidade. Pior pra eles, né? Porque como diz a letra, “São sempre os mesmos sonhos/ De quantidade e tamanho”. Entra década, sai década, os caras continuam sonhando com as mesmas coisas, tipo ter uma coleção de carrões e outra de mulheres.

Bom, mas daí o Leoni, que compôs a crítica aos garotos junto com a Paula, resolveu lançar uma música chamada “Garotos II”, em resposta à sua própria composição “Garotos”, gravada pelo Kid Abelha. Em “Garotos II”, que é uma música muito boa de ouvir (e me arrepiava nos anos 1990), o que o eu-lírico de Leoni faz é, em linhas gerais, fingir demência.

Prestigie:

O uso da palavra “tentação” junto com “mulher” é uma cilada pra gente desde o Velho Testamento. Diz que a Eva deu a ideia erradíssima de comer o fruto proibido enquanto o Adão… bom, provavelmente Adão também era só um garoto. Tipo o Neymar na propaganda de lâmina de barbear ou o Leoni dizendo “Garotos não resistem aos seus mistérios/ Garotos nunca dizem não/ Garotos como eu sempre tão esperto/ Perto de uma mulher/ São só garotos”. 

Tá bom de infantilização de marmanjo ou você quer mais? Porque se quiser mais, ainda tem: “Me agarram pelas pernas/ Certas mulheres como você/ Me levam sempre onde querem”. Rapaz, quem escuta isso fica achando que a mulher pôs droga na bebida do “garoto” e o levou pra casa à força.

Piadas à parte, a dinâmica em que o homem se faz de criança e a mulher fica com a bucha de ser a pessoa lúcida — ou maliciosa — da relação não é nova. Não era nova nos anos 1980 e continua sem um desfecho satisfatório para os casais heteronormativos até hoje.

Estou certa de que vários garotos dirão que Leoni assumiu os erros quando escreveu “Garotos I”. A gente também vai precisar admitir, vendo a letra de “Garotos II”, que o danado assumiu os erros mas não mudou de atitude durante aqueles anos, né?

Talvez Paula e Leoni tenham sido o primeiro casal moderno icônico do Brasil. Na opinião de muita gente, o casal moderno é composto por uma mina pedindo maturidade e um cara se fazendo de doido. 

Nada mudou, mas deve ser porque nós, as mulheres, estamos dando muito mole pra essa garotada.

]]>
0
Democracia em Vertigem: por que voz de Petra Costa incomodou tanta gente? https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/25/democracia-em-vertigem-por-que-voz-de-petra-costa-incomodou-tanta-gente/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/25/democracia-em-vertigem-por-que-voz-de-petra-costa-incomodou-tanta-gente/#respond Tue, 25 Jun 2019 07:00:06 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2494

Diego Bresani/Divulgação

A estreia de “Democracia em Vertigem”, documentário de Petra Costa lançado pela Netflix para mais de 190 países fez muito barulho, como era de se esperar. O longa faz um apanhado sobre a história do impeachment de Dilma Rousseff e sua relação com a democracia restabelecida no Brasil em 1985, após o regime militar.

Na internet, alguns espectadores com convicções políticas à direita e à esquerda concordaram em reclamar do tom escolhido pela diretora para contar a história. O conteúdo exclusivo que o filme traz — como bastidores do dia do impeachment de Dilma e falas de Lula no dia de sua prisão — parecem ter surpreendido menos os pensadores de redes sociais do que a forma como Petra narra os fatos.

Veja também:

Quem conhece outros trabalhos da diretora (como o premiado Elena, de 2012) já sabia o que esperar nesse sentido: Petra aposta na fórmula de dividir histórias íntimas para debater temas maiores, com implicações políticas e sociais. Com “Democracia em Vertigem”, a diretora não fez diferente. Ela deixou bem claro que estava contando os fatos políticos desde sua perspectiva pessoal, sem arrogância e sem omitir dados biográficos relevantes — ela é filha de ex-militantes e neta de Gabriel Andrade, um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez.

Nos primeiros minutos do filme, confesso que também me senti aflita com o que estava vendo: “como assim a mulher fala abertamente sobre sua simpatia pelos governos do PT? Em um momento beligerante como nosso, o posicionamento de Petra Costa a respeito do partido que desperta mais paixões no Brasil só poderia servir, lamentavelmente, para acirrar a já exaustiva polaridade política que experimentamos desde junho de 2013”, pensei. O melhor que fiz por mim foi segurar a ansiedade e assistir o relato até o fim.

É excepcional a honestidade de Petra ao montar uma linha do tempo comparando suas expectativas políticas pessoais com o que de fato aconteceu no cenário político dos últimos anos. Ela não tenta, em nenhum momento, meter uma aparência de neutralidade goela abaixo do espectador porque não precisa. A postura da diretora é como “olha, eu esperava isso, aconteceu aquilo, e os fatos documentados são estes”. Ela se mostra triste com o desenrolar da história sim, mas qual brasileiro não está, à sua maneira?

O que deve causar muita estranheza para a audiência mais sagaz de “Democracia em Vertigem” é justamente a narrativa livre de sagacidade. No filme, a narradora se coloca como a brasileira que é: uma mulher privilegiada, mas tão perdida quanto qualquer um de nós nesse momento. Isso, por si, já foi uma escolha bem corajosa.

A voz de Petra Costa pode ser classificada como triste, apática, sentimentalista, vitimista ou umbiguista por quem quer que seja, mas pouca gente até aqui teve tanta bravura e competência quanto a diretora para tentar entender o quadro em que vivemos.

Apatia e tristeza são, aliás, sintomas clássicos no comportamento de quem fica vidrado na roleta de polêmicas da internet — sem trazer ao mundo nada tão poderoso como Democracia em Vertigem. Para bom entendedor, a voz mansa de Petra Costa é um gritão no pé da orelha.

]]>
0
Para desbancar hacker, Bella Thorne expõe suas nudes. E está errada? https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/para-desbancar-hacker-bella-thorne-expoe-suas-nudes-e-esta-errada/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/para-desbancar-hacker-bella-thorne-expoe-suas-nudes-e-esta-errada/#respond Tue, 18 Jun 2019 07:00:18 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2488

(Reprodução/ Instagram)

O que você faria se fosse uma pessoa famosa sendo chantageada por um hacker em posse das suas fotos mais íntimas?

A atriz, cantora e escritora Bella Thorne passou por essa situação no último final de semana e decidiu “tomar o poder” do hacker expondo, ela mesma, as fotos que o meliante ameaçava vazar. É claro que a iniciativa da artista virou uma lasanha de problematizações na internet. 

 


“Dane-se o poder que você acha que exerce sobre mim. Vou escrever sobre isso no meu próximo livro.
Ontem, todas as minhas m*** foram hackeadas. Nas últimas 24 horas, venho sendo ameaçada com meus próximos nudes. Eu me sinto vigiada e sinto que uma pessoa tirou de mim algo que eu só queria como especial para uma outra pessoa ver. Ele [o hacker] me mandou várias fotos de outras celebridades e disse que não ia parar comigo”. “Por muito tempo eu deixei homens tirarem vantagem de mim e estou cansada disso. Estou acabando com isso porque é minha decisão agora, você não tem o direito de tirar isso de mim. Posso dormir melhor esta noite, sabendo que tomei o poder de volta. Aqui estão as fotos com que ele me ameaçou, em outras palavras, aqui estão meus seios. Ah, e o FBI vai bater na sua porta, se cuide”

Veja também

Antes de entrar no mérito sobre a grande exposição que divulgar as próprias nudes significa, é importante lembrar que Thorne tem 21 anos de idade. Não sei você, mas na época em que eu também tinha 21, experimentava meu auge de erotismo  — e se não tenho registros desse tempo bom, deve ser porque ainda não existiam aparatos tecnológicos para trocar arquivos picantes com os namoradinhos.

Dito isso, tenhamos em mente que uma uma pessoa de 21 anos foi constrangida por manter um acervo erótico (com fotos de si mesma!) em seus arquivos privados. Se a chantagem do hacker não for uma insinuação de que ela deveria ter vergonha da própria sexualidade, não sei o que poderia ser.

Quando decide não ficar na mão do palhaço (real e figurativamente) expondo suas nudes, Thorne passa uma mensagem poderosa: ninguém deveria ter vergonha do auto-erotismo. Isso exige uma liberdade e uma convicção em si que poucas pessoas têm, mas todas poderiam almejar.

É normal que a gente se pergunte se Thorne não acabou entrando na dança do chantagista quando exibiu o conteúdo íntimo. Em alguma medida, ela entrou mesmo. O lado bom disso é que ela teve a oportunidade de provar, no fim das contas, que não há nada de errado com o fato de que ela tem uma vida erótica — e que não deveria ser enxovalhada por isso.

A provocação de Thorne ao hacker e aos punheteiros ávidos por nudes vazadas foi excelente, mas não deve ser simples de sustentar. Um bando de gente insinuou que ela fez isso para ganhar atenção midiática. Agora vem cá: isso já não acontece com todo famoso que tem fotos íntimas expostas?

É lógico que há quem vaze nudes deliberadamente para brilhar na mídia. Se foi o caso de Thorne ou não, importa menos do que o recado que o episódio nos deixou: as pessoas deveriam poder curtir a sexualidade delas em paz sempre que isso não cause mal a ninguém.

Se existe algo mais inofensivo do que selfie das próprias tetas num momento histórico tão assustador por motivos diversos, desconheço.

]]>
0
Apoiar lei “Neymar da Penha” é assinar atestado de truculência https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/apoiar-lei-neymar-da-penha-e-assinar-atestado-de-truculencia/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/07/apoiar-lei-neymar-da-penha-e-assinar-atestado-de-truculencia/#respond Fri, 07 Jun 2019 16:01:40 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2478

(AFP)

Apesar de ser uma denúncia ainda em investigação, os desdobramentos do caso Neymar não param de pipocar na mídia e provocar manifestações passionais de todos os tipos dentro e fora da internet.

O deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) protocolou nesta quinta-feira (06), na Câmara dos Deputados, um projeto de lei para agravar a pena de denunciação caluniosa de crimes contra a dignidade sexual. Jordy mencionou que já tinha o projeto em mente e que a polêmica em torno de Neymar na última semana foi o que fez com que ele voltasse a priorizar a pauta.

Veja também:

No Twitter, a notícia do projeto de lei viralizou e ganhou o apelido de “Neymar da Penha”, provando que a situação de truculência no Brasil é grave, mas sempre pode piorar. Só há duas opções para definir quem acha graça de um trocadilho com o caso Maria da Penha: ou esta pessoa desconhece a história ou ela tem uma mente perigosa.

Partindo da perspectiva otimista de que as pessoas estariam fazendo galhofa com o nome de Maria da Penha apenas por desinformação, aqui vão alguns dados importantes sobre a história da lei e desta mulher a quem devemos muito. Em 1983, Maria da Penha, uma biofarmacêutica cearense de 38 anos sofreu duas tentativas de assassinato pelo então marido, Marco Antonio Heredia — pai de suas três filhas que tinham entre dois e seis anos de idade.

No primeiro ataque, Heredia atirou nas costas da esposa enquanto ela dormia. Como explicação, ele disse que um assaltante havia invadido a casa e seria o autor do disparo. O tiro deixou Maria da Penha paraplégica. No mesmo ano, Heredia tentou matar a esposa novamente: ele empurrou a companheira da cadeira de rodas e tentou eletrocutá-la no chuveiro.

Mesmo após provar que passou por todas essas violências, Maria da Penha levou mais de duas décadas batalhando na justiça para que nossa legislação protegesse, efetivamente, as vítimas de violência doméstica. A história desta mulher não é piada, não tem graça e nem margem para trocadilho de nenhum tipo.

O comentarista de internet tipicamente violento poderia até dizer que quem falta ao respeito com Maria da Penha parte de pessoas que fazem falsas denúncias de abuso. Sem dúvidas, esse é um desrespeito não só à história da mulher que inspirou a lei como à história de todas as brasileiras que esperam ser amparadas pela justiça caso necessário. Nisso, estamos de acordo. Ainda assim, restam dois problemas imensos.

 O primeiro e mais importante é que o caso ainda não foi solucionado. Portanto, é precipitado tirar qualquer conclusão sobre a história. O segundo problema é usar a conclusão de falsa denúncia (que ainda nem existe!) para fazer graça com uma desgraça sem tamanho, como foi a que Maria da Penha experimentou.

Se querem pensar em leis contemplando o caso de Neymar caso ele seja inocentado, que façam uma só com o nome dele — muito embora Neymar pai já tenha recusado a oferta. Como ele mesmo disse ao ser questionado sobre “Neymar da Penha”, ninguém gostaria, jamais, de ter o próprio nome atrelado a um crime hediondo, como é o estupro. Aos Neymar, não interessa receber essa “homenagem”. Eles só querem esquecer o assunto.

Mais uma vez, fica a sugestão de reverenciar Maria da Penha — principalmente pela coragem de aceitar que algo tão triste como a violência de gênero esteja eternizada em seu nome. Não é pouca coisa. Todo o respeito do mundo ainda seria pouco para essa mulher.

]]>
0
Guarde a tocha: quem torce por justiça no caso Neymar deveria ficar quieto https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/04/guarde-a-tocha-quem-torce-por-justica-no-caso-neymar-deveria-ficar-quieto/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/06/04/guarde-a-tocha-quem-torce-por-justica-no-caso-neymar-deveria-ficar-quieto/#respond Tue, 04 Jun 2019 07:00:24 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2470

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)


O final de semana foi marcado por uma discussão pública intensa sobre a acusação de estupro que veio à tona na última sexta-feira (31), contra Neymar. No sábado (1º), o jogador publicou um vídeo em seu Instagram expondo as conversas íntimas que teria mantido com a denunciante, via WhatsApp, antes e depois de encontrá-la em um quarto de hotel em Paris.

Além da conversa, o vídeo — que foi excluído ontem por violar os termos e condições do Instagram — mostrava imagens da denunciante nua. O rosto dela foi preservado pela edição, mas o nome da foi divulgado abertamente no programa Brasil Urgente, apresentado por José Luiz Datena (que, coincidência ou não, responde processo por assédio sexual). Ou seja: a vida da moça está sendo devassada pela opinião pública.

Veja também

Você pode estar se perguntando se Neymar está acima da lei por não ter sido punido na divulgação de conteúdo sexual envolvendo a denunciante. Para a promotora de justiça Silvia Chakian, que coordena o Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (GEVID), do Ministério Público do Estado de São Paulo, até essa conclusão pode ter desfechos variados quando a hipótese de estupro for comprovada ou refutada.

“É precipitado dizer que Neymar praticou o crime previsto no artigo 218-C do Código Penal ao divulgar as conversas de WhatsApp porque ele tem direito ao exercício da defesa dele, assim como ela — e essa troca de mensagens precisa ser analisada pela justiça. É impossível enquadrá-lo em algum crime enquanto as evidências ainda são objeto de investigação”, explica.

Há quem diga que Neymar está sendo muito mais exposto do que a denunciante por ser uma figura pública e há quem lembre que a modelo exposta na internet não tem as mesmas oportunidades que Neymar de defender a própria honra após ter nudes vazados. Sobre isso, Chakian também pondera: “Por um lado, Neymar está sofrendo uma acusação de crime hediondo, com muito estigma. Por outro, é inaceitável que uma mulher seja rotulada publicamente com base em seu comportamento sexual. Um crime gravíssimo foi noticiado e ele merece uma investigação exemplar, porque duas vidas e duas reputações estão em jogo”, completa.

Durante nossa conversa, a promotora ressaltou que outras responsabilidades sobre a divulgação de imagem e identidade da vítima também estão sendo investigadas pelos órgãos competentes. O veredicto sobre o crime de estupro pode mudar a forma como a justiça vai encarar a iniciativa do jogador ao divulgar uma troca de mensagens desse tipo.

Tá, mas o que a gente tem com isso?

Tudo e nada. Ao mesmo tempo em que a repercussão do caso gera diálogos fundamentais para o avanço do debate sobre violência de gênero, é impossível negar que o “tribunal da internet” pesou na decisão do jogador quando ele optou por expor a intimidade da denunciante. Além da própria reputação, é sabido que Neymar tem contratos publicitários milionários a perder caso seja condenado por alguma das acusações — e isso deixa o caso ainda mais tétrico para quem se irrita com o poder que o dinheiro tem de conduzir as pessoas a decisões equivocadas ou criminosas.

Expor a intimidade de alguém que te acusa de abuso sexual não é uma boa ideia em nenhum caso, mas principalmente quando se é inocente. Fica parecendo que não é. O gesto de Neymar ao publicar o vídeo foi revoltante mesmo, e é natural que as pessoas queiram respostas legais sobre isso. Por outro lado, o debate leviano sobre casos sérios também foi o que nos fez testemunhar essa conduta lamentável do jogador.

É difícil confiar na justiça brasileira e esse talvez seja um dos motivos pelos quais nos sentimos imbuídos da missão de fazê-la com nossos próprios teclados. Esse raciocínio, aliás, é bem sintomático durante um governo que pretende legalizar armas para que o cidadão “não precise” de segurança pública para se sentir seguro.

Quanto à culpa ou inocência de Neymar, tanto as pessoas que acreditam que o jogador cometeu um estupro quanto as que acham que ele foi vítima de uma acusação falsa estão, agora, no mesmo barco. A quem acompanha o caso esperando por um desfecho justo, resta torcer para que a tal da investigação exemplar aconteça mesmo — e que novos debates públicos, mais lúcidos, possam se desenrolar nas redes.

]]>
0
Por que o feminismo incomoda tanto alguns homens? https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/por-que-o-feminismo-incomoda-tanto-alguns-homens/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/por-que-o-feminismo-incomoda-tanto-alguns-homens/#respond Fri, 31 May 2019 07:00:31 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2463

Você disse não a uma situação abusiva? Ah, tá pedindo, né! (Ilustração: yeahyeahchloe)

Neste final de semana (1 e 2 de junho), o Path — festival sobre inovação e criatividade no Brasil —  apresenta shows, filmes, workshops e palestras sobre os assuntos mais discutidos na mídia ao longo dos últimos anos. Dentre eles, o feminismo é obviamente um grande tema.

Lendo uma ótima reportagem sobre o painel que irá discutir o papel do homem no feminismo, fiquei triste (mas não surpresa) com os comentários da maioria dos leitores sobre o assunto. Ainda que a experiência dos palestrantes seja evidente e que a abordagem do tema seja tão delicada e respeitosa quanto ele merece que seja, a resposta dos homens é geralmente ríspida — para usar uma palavra mais elegante do que as escolhidas em falas como “O papel do homem é igual o macarrão: entrar duro e sair mole, pingando. O resto é detalhe”.

Veja também

Quando falo de masculinidades no blog, a recepção do público não é muito mais carinhosa. A gente pode até achar que virulência é coisa de comentarista de internet, que se aproveita do anonimato para ser muito mais agressivo do que seria se estivesse frente a frente com a pessoa que discute esse tipo de ideia. Infelizmente, o buraco é mais em baixo. Experimente ser uma mulher que diz não a situações abusivas e você vai ver a alma do interlocutor abandonando o corpo lentamente.

Desde 2013, o feminismo vem ganhando um protagonismo indiscutível nos meios de comunicação, nas artes e até na publicidade brasileira. Em maior ou menor grau, todas as mulheres estão descobrindo sobre autonomia e igualdade enquanto essa discussão ganha força. Mesmo as mulheres que se dizem antipáticas ao feminismo estão experimentando uma liberdade inédita para se posicionar sobre cidadania, sexualidade e poder de decisão sobre o próprio corpo. Em tese, isso deveria ser um direito garantido a qualquer homem e a qualquer mulher, desde sempre.

Na prática, as mulheres ficaram mais chatas aos olhos dos homens. Por um lado, isso não é mentira: sempre que uma mulher se recusa a fazer ou ouvir o que não gosta com passividade, a negação acaba chateando a pessoa que estava com expectativas não muito nobres pra cima dela. Nesse caso, precisamos discutir com mais cuidado quem é o chato da história.

Fora da internet, as agressões também chegam quando a gente só quer sinalizar que não está à vontade em alguma situação. Mulher que não quer ser assediada na rua: chata. Mulher que se recusa a transar por “obrigação”: chata. Mulher que quer o mesmo salário que um cara no mesmo cargo: chata. Mulher que espera que os homens também lavem as próprias cuecas: chata. Mulher que também quer gozar no sexo: chata.

Falando do fundo do coração sobre isso, chato é abusar das pessoas. Chato é reclamar de quem não quer ser abusada. Chato é acreditar que a mulher que recusa um abuso é uma chata. Chato é o cara que vai chegar aqui para avisar que nem todos os homens são assim.

Em uma sociedade que foi toda montada para que homens falem e mulheres escutem, seria maravilhoso a gente praticar a alteridade desses papéis. Iniciativas como a do Path, propondo que homens exercitem a escuta e que mulheres pratiquem a fala são fundamentais para que nossas relações se tornem harmoniosas.

O feminismo só incomoda as pessoas autoritárias. Quem gosta de mulher obediente vai experimentar cada vez mais desgosto nos próximos anos — em silêncio ou esperneando. Fica a critério. 

]]>
0
Batman acha que é gótico, mas é emo. Pattinson é perfeito para o papel https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/05/29/batman-acha-que-e-gotico-mas-e-emo-pattinson-e-perfeito-para-o-papel/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/05/29/batman-acha-que-e-gotico-mas-e-emo-pattinson-e-perfeito-para-o-papel/#respond Wed, 29 May 2019 07:00:01 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2446

De boas, curtindo uma bad na caverna (Foto: iStock)

Nas últimas semanas, os rumores de que o ator Robert Pattinson seria o próximo Batman na franquia de filmes da DC Comics deixou uma galera indignada. Em linhas gerais, o pessoal reclama que Pattinson (da saga Crepúsculo) não seria durão o suficiente e nem bom ator para um papel desse tamanho.

Pattinson tem fama de emo e as pessoas acham que Batman é gótico. Vocês me desculpem, mas vamos pensar um pouco melhor sobre essas afirmações?

A gente adora o Batman porque ele é humano, mas, apesar de ser um super-herói sem superpoderes, conta com todos os atributos socialmente desejáveis em um homem — principalmente pelos próprios caras, já as mulheres são menos exigentes com esse negócio aí de modelos masculinos inabaláveis. Voltando ao Batman, ele é um homem branco, famoso por sua inteligência, é playboy, tem uns carros caríssimos tunados e pratica artes marciais. Até aí, nada contra o Pattinson.

Aqui, temos provas irrefutáveis de que o Batman é tudo o que um rapaz gostaria de ser:


Homem bonito e legal = tonto.

Homem bonito e inteligente = babaca.

Homem inteligente e legal = nerd.

Homem bonito, inteligente e legal = Batman.


Veja também

O único problema desse super-herói é… todo o resto. Batman faz de tudo para ser durão, mas um cara que não lida bem com as emoções, na minha terra, é emo sim.

Ele precisa, desesperadamente, se distrair dos próprios sentimentos e é por isso que vive nessa sobrecarga de trabalhar como CEO de dia e ainda salvar o mundo à noite. Importante, também, é lembrar que o Batman mora numa caverna e não é um morcego de verdade. Você acha saudável morar numa caverna quando você tem a opção de morar em uma casa ensolarada? Eu não acho.

Daí que a caverna é só uma pista para o grande sofrimento que essa assepsia emocional tem proporcionado ao Batman. Ele dedica um tempo tão irrisório aos traumas mal resolvidos que acabou virando um cara com duas identidades — sendo uma com máscara! Não há modo de pensar nisso sem dar um sorrisinho malandro e lembrar do documentário “A máscara em que você vive”, da Netflix. A questão da cueca por cima da roupa eu deixo para cada leitor tirar suas próprias conclusões.

Repare bem. Batman é órfão, nunca chora, resolveu combater o crime por causa disso mas não costuma tocar no assunto. Ele só tem o Alfred — seu mordomo — na lista de amigos íntimos. Você pode estar pensando em citar o Robin como melhor amigo, mas sejamos honestos: a interação dele com o Robin é emocionalmente pobre. Os caras só se encontram eventualmente para extravasar raiva, juntos, chutando bundas de criminosos. Eles nem são íntimos e, além de tudo, qualquer coisinha o pessoal faz galhofa insinuando que são gays.

O Batman, coitado, não consegue entrar muito em contato com o que sente. Ele acha que é gótico, faz de tudo para parecer gótico mas vai ser emo (nada contra, até tenho amigos que são) enquanto não cuidar dessa masculinidade tóxica aí. A única emoção que ele consegue demostrar é ódio; no resto do tempo, ele parece impassível. Por essa e por outras, seria até um desperdício escalar um ator super expressivo para viver o papel do cara que mal expressa o que sente.

A escolha do Pattinson é perfeita. Já as escolhas pessoais do Batman, tomara que melhorem nos próximos episódios da saga.

]]>
0
Ministério da Família acha que mulheres são incubadoras humanas? https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/ministerio-da-familia-acha-mulheres-sao-incubadoras-humanas/ https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/ministerio-da-familia-acha-mulheres-sao-incubadoras-humanas/#respond Fri, 24 May 2019 07:00:32 +0000 https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/?p=2437

Qualquer semelhança com “O Conto da Aia” parece ter sido friamente planejada.

Nesta terça-feira (21), o ministério da Família lançou a campanha Cruzada da Adoção, um projeto que estuda flexibilizar a Lei da Adoção vigente no país

Para além da ambiciosa empreitada de acelerar o processo adaptativo entre filhos e pais adotivos — e lembrando que a ministra Damares Alves nunca formalizou a adoção da própria filha dentro dos termos da lei — o ministério também pretende lançar um mote bem capcioso: “Não mate, adote”, incentivando que mulheres deixem os filhos indesejados para adoção.

Trocando em miúdos, a sugestão da pasta é que as brasileiras se portem como incubadoras em caso de gravidez indesejada, como se nove meses de gestação fosse algo trivial na vida de qualquer mulher. Nenhum país sério e desenvolvido teria a audácia de lançar essa proposta à população sem medo de sofrer represálias sérias, mas, no nosso — em que o aborto é proibido (e onde se estuda negá-lo inclusive para vítimas de estupro) a notícia pode até passar batida em meio a tantas crises diplomáticas e sociais. 

Veja também

Ouvindo as falas de Damares sobre o aborto é impossível não achar que estamos vivendo uma história distópica no melhor estilo “O Conto da Aia”  A adoção, o aborto e a dignidade das mulheres — as que querem e as que não querem ter engravidar — são discussões que só podem evoluir caminhando de mãos dadas.

Por muito que haja boa intenção no sentido de ajudar crianças abandonadas pela família biológica, os abandonos não vão cessar enquanto as mulheres não receberem autonomia e apoio para decidir se querem ou não passar por uma gravidez. A forma mais eficaz de reduzir abortos e abandono de crianças é, inclusive, a legalização do aborto aliada a uma política eficiente de planejamento familiar. Funcionou em todos os países onde o aborto é legalizado justamente porque a mulher que tem uma gravidez indesejada, nesses lugares, pode receber acompanhamento e avaliação profissional para decidir com lucidez sobre a continuidade ou a interrupção da gestação.

Tratar mulheres como seres incapazes de arbitrar sobre o próprio corpo e lançar julgamentos morais sobre aquelas que não engravidaram sozinhas — mas vão precisar lidar com as consequências disso a sós — é fortalecer um ciclo triste em que, escondidas, mulheres continuam abortando filhos indesejados ou abandonando essas crianças pelas ruas para não lidar com a censura sobre suas escolhas pessoais. A família que abandona um filho é, antes de mais nada, uma família que já foi abandonada pelo Estado. 

A proposta de sugerir que uma mulher leve a gravidez indesejada adiante para entregar a criança ao Estado no pós-parto é desumanizadora para todos os envolvidos. Fica muito difícil de entender para que esse governo insiste tanto em gerar novos cidadãos se, no futuro, a cidadania deles será negada de tantas formas distintas.

]]>
0